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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Sexta-feira
Dez012017

A graduação acontece entre as aulas

Há um texto circulando por aí sobre não entrar na universidade no ano que vem. Eu até concordo que se entra muito cedo na universidade, mas a raiz do problema que o autor teve não está em sua entrada na universidade, mas sim de como ele entende a graduação e até como seus professores entendem a graduação.

Esta não será uma opinião popular, mas a sua graduação acontece no espaço de tempo entre suas aulas. Claro, aulas são importantes, elas vão te ensinar o básico sobre a sua área, mas não são tão importantes quanto o que você faz no resto do seu dia. É no espaço entre as aulas que você vai fazer os seus contatos profissionais mais importantes, que você vai aprender a aprender e se manter atualizado, que você vai se tornar um empreendedor, que você vai expandir sua mente para além da sua graduação, e que você irá aprender sobre sua profissão, fazendo estágios e outros trabalhos. Por incrível que pareça, formar-se um profissional é muito mais do que tirar notas altas. Não é à toa o número de pessoas famosas que nunca terminaram Harvard: entrar em Harvard e viver Harvard (ou qualquer grande universidade) muitas vezes é o suficiente.

Voltando ao autor do texto, ele disse que só se sentiu realizado após entrar em uma empresa júnior, ao voluntariar na organização de um TEDx e ao trabalhar em um laboratório. Tudo isso que ele fez é o que realmente está preparando-o profissionalmente. Mas não se engane, estas oportunidade só aconteceram porque ele ENTROU na universidade primeiro. Porque a universidade serve para isso e não só para te dar créditos.

Dito isto, confesso que vejo muitos cursos de graduação aumentando a sua carga horária - muitas vezes reduzindo as disciplinas básicas para ampliar disciplinas especializadas. Não serei popular, mas creio que estes cursos estão completamente enganados. Eles tomam estas atitudes para melhorar a formação do profissional mas eles acabam gerando hordas de alunos esgotados mentalmente e profissionais sem experiência nenhuma. Caro leitor que se sente esgotado pelas pressões de seu curso: a culpa não é sua. A culpa não é sua.

Qual é a minha sugestão? Se sua situação financeira o permitir, reorganize sua grade horária e faça menos créditos no ano que vem. Procure um estágio, um trabalho voluntário, integre o movimento estudantil. Reserve um tempo para estudar coisas que não irão cair na prova mas te interessem. Vá a palestras, faça mini-cursos, leia coisas diferentes, agarre oportunidades diferentes. Crie seu movimento estudantil, organize seus eventos, crie. Não espera uma disciplina de graduação sobre empreendedorismo, empreenda. Não se esqueça de lutar por cargas horárias menores, por auxílios financeiros aos estudantes, bolsas e outras políticas que poderiam ajudar os que precisam trabalhar entre as salas de aulas. Viva a universidade e você sairá dela mais graduado que seus colegas.  Viva a universidade.

Terça-feira
Abr072015

Brontossauros renascem

Há algum tempo penso em reativar o blog. No entanto sempre me faltou um empurrãozinho para que isso acontecesse. Faltava algo extraordinário que me fizesse voltar a escrever. Mas eu sabia de uma coisa, uma hora isso ia acontecer: uma das coisas que mais garantidas na Ciência, é que coisas extraordinárias acontecem.

Uma das mais piadas (nerds) mais prontas no meu blog é que, bem, brontossauros não existem. Ainda no século XIX, a espécie Brontosaurus excelsus foi descrita apressadamente por Marsh. No entanto, depois se descobriu que o esqueleto que representava a espécie era muito parecido com outro gênero, Apatosaurus e, portanto, os dois gêneros deveriam ser unificados. Assim, como o gênero Apatosaurus fora descrito primeiro, o Brontosaurus excelsus se tornou Apatosaurus excelsus, extinguindo-se os brontossauros.

Trocas de nomes e gêneros são muito comuns em taxonomia, cujo trabalho equivale à pegar uma foto de pessoas andando na Paulista e tentar descobrir quem é mais aparentado de quem. Quando se trata de taxonomia de fósseis, a coisa é pior, pois a foto é preto-e-branco, está desfocada, puída e picada em mil pedaços, sendo que muitos deles foram comidos pelo seu cachorro.

O fato extraordinário é: o gênero Brontosaurus voltou! Um estudo extenso do grupo Diplodocidae que acabou de ser publicado no PeerJ, acaba de reorganizar todo o grupo o que resultou, fortuitamente (ou não), na volta do gênero Brontosaurus! Este estudo se destaca - creio - pelo o número de espécimes utilizados (81), junto com o número de caracteres morfológicos medidos (477) e a técnica utilizada para gerar os agrupamentos. Obviamente isso pode mudar em futuros estudos, mas guardarei para sempre este artigo para mostrar a detratores.

É bom sempre lembrar que estudos taxonômicos e análises filogenéticas não servem apenas para renomear coisas e agradar o autor deste blog. É com estes estudos que conseguimos entender um pouco mais sobre da história da vida na Terra, que conseguimos entender um pouco mais sobre a diversidade atual da vida na Terra e, por consequência, um pouco mais sobre como funciona a evolução.

Existem muitos motivos para eu ter parado de escrever no blog. A falta de tempo e a falta de motivação são dois deles. Além disso, críticas sempre chegam mais rápido do que elogios, então parece que estamos fazendo tudo errado. Quem sabe agora que o blog tem um nome taxonomicamente válido, eu me sinta mais à vontade para escrever?

Fontes:
Artigo de divulgação na Nature News
Artigo original no PeerJ (também fonte da imagem)

Segunda-feira
Dez092013

Europa Report: ficção científica do ano!

2013 foi um ano bom para filmes de ficção científica. Todos sempre lembrarão de Gravidade, que entrou junto com Contato, Moon e 2001 no hall de grandes filmes espaciais (e não, Star Wars não está entre eles*). No entanto, vou sustentar que todos deveriam se lembrar de Europa Report, um filme tão bom quanto Gravidade, mesmo que por motivos diferentes.

Em Europa Report temos mais um filme no estilo mockumentary, com uma série de relatos e filmagens sobre uma missão espacial para Europa, uma das luas de Júpiter. Isso me fez olhar o filme de forma desconfiada, poucos são os que conseguem ser bem sucedidos no formato. No entanto, a justificativa de se fazer um filme desta forma convence e acaba tornando o formato uma qualidade.

Europa, a lua, é um alvo interessante para uma missão espacial porque existem fortes evidências de fontes de energia (peróxido de hidrogênio, a gravidade de Júpiter ou até atividade geotermal) e água no estado líquido. Uma fonte de energia e água líquida são dois pré-requisitos para a existência de vida - pelo menos do jeito que a conhecemos. O objetivo da missão tripulada do filme é justamente procurar por Vida lá fora. No entanto, nada é fácil: só a viagem de ida para Europa dura um ano e meio e logo aos 6 meses a nave perde qualquer comunicação com o nosso planeta. Como os astronautas reagiram ao isolamento? O que aconteceu durante a missão? Se estamos vendo vídeos da missão, como os obtivemos? Eles descobriram vida no satélite… ou a vida os descobriu?

Uma das grandes qualidades deste filme são os personagens. Todos os personagens da missão são humanos e heróicos, foram selecionados para a missão por isso. Em Europa Report, você não tem seres humanos nacionalistas, egoístas, mesquinhos, você tem uma equipe de exploradores - cientistas e engenheiros - profissionais, bem treinados e comprometidos com sua missão. Comprometimento que inclui arriscar a própria vida para garantir o seu sucesso. Não é um filme sobre corporações corruptas, seres humanos fracos e monstros malvados**. É sobre os riscos e os sacrifícios envolvidos nas maiores descobertas. É sobre humanos sendo superhumanos, mesmo quando suas vidas estão em riscos. É sobre os perigos de missões tripuladas no espaço e também é sobre os seus potenciais benefícios.

Eu sei que muito acharão Europa Report um filme lento. Realmente, o filme não tem a adrenalina e a tensão de Gravidade. No entanto, eu não vi nisto um defeito. Missões espaciais são longas e lentas. Descobertas científicas são longas e lentas. Acho que a lentidão do filme só dá mais veracidade ao filme. As imagens são belíssimas, nos faz esquecer que é um filme de baixo orçamento. E ver cientistas agindo - e reagindo - como cientistas diante de resultados científicos inesperados não tem preço.

* nada contra Star Wars mas a parte científica desta trilogia é tão pequena que ele acaba sendo mais um filme de ação/fantasia do que outro gênero
** sim, eu adoro Alien, ainda mais do que Star Wars

Quinta-feira
Out172013

Franklin no rap contra Watson e Crick

Ainda tenho muito a falar sobre o post de ontem, é um assunto sério que estamos avrrendo para baixo do pano.

No entanto vamos colocar algo aqui para limpar um pouco o paladar.

Este vídeo me chamou atenção:

A iniciativa de incorporar Ciência, vídeo e música é maravilhosa e o conteúdo é excelente.

Acho que nunca saberemos se Rosalind iria chegar à estrutura do DNA se Maurice, James e Francis não a tivessem sabotado. Talvez tivéssemos o modelo de Pauling hoje ou Franklin-Wilkins, quem sabe? O que sabemos é que ela foi uma cientista tentando fazer seu trabalho em um ambiente completamente hostil e, mesmo assim, era extremamente competente.

Rosalind era vítima de assédio sexual, possivelmente, assédio moral. Até quando?

Quarta-feira
Out162013

Assédio sexual é um problema na academia brasileira?

Uma das pessoas que mais respeito entre blogueiros de Ciência, Bora Zivkovic, está envolvido em denúncias de assédio sexual. Para saber mais, comece pelo bom texto do Greg Laden.

O Bora é um padrinho dos blogs de Ciência. Ele é o responsável pela transformação do Lablogatórios em ScienceBlogs Brasil. Porém, não há razões para achar que estas denúncias sejam falsas. Ele errou feio e deve sofrer as consequências de seus atos.

Além da profunda decepção que sinto no momento, fica o sentimento de que ainda temos muito o que fazer no que se refere ao tratamento que homens dão às mulheres.

Eu fico em pânico ao imaginar o que diversas pesquisadoras podem ter passado, e passam rotineiramente, aqui no Brasil, onde há ainda menos mecanismos de proteção contra esse tipo de assédio. Será que deveríamos começar a discutir seriamente sobre isso no Brasil?

PS: não publicarei comentários que denunciem pessoas pelo nome mas não se acanhe de colocar seu testemunho, se quiser.