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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Segunda-feira
Mar262018

Como fazer laranjas vermelhas

 

Antocianinas são pigmentos que dão cor avermelhada à grande maioria das plantas. Curiosamente, antocianinas são raramente encontradas em Citrus, com algumas notáveis exceções: as laranjas sanguíneas. Os cultivares de laranjas sanguíneas, cultivados principalmente na Itália, possuem a polpa com uma cor forte avermelhada, muito bonita, mas somente se seus frutos passarem por um período de frio, o que torna sua produção pouco previsível e restrita à poucas localidades geográficas.

Um grupo de pesquisadores ingleses, italianos e chineses decidiu estudar os mecanismos que levam à cor vermelha nas laranjas sanguíneas. Se eles descobrissem este mecanismo, haveria a possibilidade de se tentar gerar variedades que façam estas laranjas sem a dependência do frio. Recentemente, este grupo descobriu que a produção de antocianinas depende de um fator de transcrição chamado Ruby, e este fator de transcrição possui um retrotransposon em sua vizinhaça.

Retrotransposons são sequências de DNA que podem se copiar e inserir em outros locais do genoma de um organismo.  Estes retrotarnsposons ficam bastante ativos em condições de estresse, levando ao aumento da atividade de Ruby. Assim, durante o estresse trazido pelo frio, Ruby fica ativo, e induz a produção de antocianinas nas laranjas, deixando-as vermelhas. Quando estes pesquisadores colocaram Ruby em tabaco, a fim de confirmar a sua função, suas folhas ficaram avermelhadas. Além disso, Ruby geralmente está inativo no gênero Citrus, justificando a ausência de cor vermelha neste grupo.

O mais curioso é que um cultivar antigo de laranja sanguínea, chinês, também possui um retrotransposon perto de Ruby. Este retrotransposon é diferente do encontrado nos cultivares italianos, indicando uma origem independente. Assim, como nos outros cultivares, o cultivar chinês também depende de frio para ficar avermelhado.

Agora que entendemos como as laranjas sanguíneas ficam vermelhas, podemos desenvolver métodos para desenvolver cultivares que não dependam do frio. Além de deixar as laranjas muito bonitas, antocianinas são antioxidantes e podem ser muito benéficas à saúde.

Imagem: Wikipedia

Fonte: Butelli, E., Licciardello, C., Zhang, Y., Liu, J., Mackay, S., Bailey, P., Reforgiato-Recupero, G., & Martin, C. (2012). Retrotransposons Control Fruit-Specific, Cold-Dependent Accumulation of Anthocyanins in Blood Oranges THE PLANT CELL ONLINE DOI: 10.1105/tpc.111.095232

Quinta-feira
Mar222018

Onde está o sci-hub?

Uma das pergunats mais frequentes no laboratório: qual é o endereço atual do sci-hub? Uma alma caridosa criou uma página para responder as nossas perguntas: Where is Sci-Hub Now?

Quarta-feira
Mar212018

I rebel

 

Recentemente fiquei sabendo que uma professora falou, anos atrás, sobre a possibilidade de eu ser contratado por sua instituição: “Não, ele vai dar muito trabalho!”. A minha reação imediata foi sorrir e pensar: “Nossa, ela me conhece mesmo…”.

 

Só que agora acho que discordo do que esta professora falou: geralmente são as instituições que me dão trabalho! São elas que tomam decisões anti-democráticas, ou anti-profissionais, ou anti-éticas. E eu tenho dificuldades em baixar a cabeça diante estas decisões. Mas sempre que “dei tabalho” foi em reação a algo. Incrivelmente, já foram 7 anos contratados e nada de dar trabalho onde estou e ficarei contente se continuar assim por muito tempo.

 

Obviamente  isso não é só sinal de maturidade, como alguns devem estar pensando. Eu continuo com um padrão conhecido de subverter o tradicional e o costumeiro quando estes não fazem sentido. Eu continuo sendo o ponto extremo nas curvas de distribuição.  E vou continuar a reagir se for provocado.

Sexta-feira
Dez012017

A graduação acontece entre as aulas

Há um texto circulando por aí sobre não entrar na universidade no ano que vem. Eu até concordo que se entra muito cedo na universidade, mas a raiz do problema que o autor teve não está em sua entrada na universidade, mas sim de como ele entende a graduação e até como seus professores entendem a graduação.

Esta não será uma opinião popular, mas a sua graduação acontece no espaço de tempo entre suas aulas. Claro, aulas são importantes, elas vão te ensinar o básico sobre a sua área, mas não são tão importantes quanto o que você faz no resto do seu dia. É no espaço entre as aulas que você vai fazer os seus contatos profissionais mais importantes, que você vai aprender a aprender e se manter atualizado, que você vai se tornar um empreendedor, que você vai expandir sua mente para além da sua graduação, e que você irá aprender sobre sua profissão, fazendo estágios e outros trabalhos. Por incrível que pareça, formar-se um profissional é muito mais do que tirar notas altas. Não é à toa o número de pessoas famosas que nunca terminaram Harvard: entrar em Harvard e viver Harvard (ou qualquer grande universidade) muitas vezes é o suficiente.

Voltando ao autor do texto, ele disse que só se sentiu realizado após entrar em uma empresa júnior, ao voluntariar na organização de um TEDx e ao trabalhar em um laboratório. Tudo isso que ele fez é o que realmente está preparando-o profissionalmente. Mas não se engane, estas oportunidade só aconteceram porque ele ENTROU na universidade primeiro. Porque a universidade serve para isso e não só para te dar créditos.

Dito isto, confesso que vejo muitos cursos de graduação aumentando a sua carga horária - muitas vezes reduzindo as disciplinas básicas para ampliar disciplinas especializadas. Não serei popular, mas creio que estes cursos estão completamente enganados. Eles tomam estas atitudes para melhorar a formação do profissional mas eles acabam gerando hordas de alunos esgotados mentalmente e profissionais sem experiência nenhuma. Caro leitor que se sente esgotado pelas pressões de seu curso: a culpa não é sua. A culpa não é sua.

Qual é a minha sugestão? Se sua situação financeira o permitir, reorganize sua grade horária e faça menos créditos no ano que vem. Procure um estágio, um trabalho voluntário, integre o movimento estudantil. Reserve um tempo para estudar coisas que não irão cair na prova mas te interessem. Vá a palestras, faça mini-cursos, leia coisas diferentes, agarre oportunidades diferentes. Crie seu movimento estudantil, organize seus eventos, crie. Não espera uma disciplina de graduação sobre empreendedorismo, empreenda. Não se esqueça de lutar por cargas horárias menores, por auxílios financeiros aos estudantes, bolsas e outras políticas que poderiam ajudar os que precisam trabalhar entre as salas de aulas. Viva a universidade e você sairá dela mais graduado que seus colegas.  Viva a universidade.

Terça-feira
Abr072015

Brontossauros renascem

Há algum tempo penso em reativar o blog. No entanto sempre me faltou um empurrãozinho para que isso acontecesse. Faltava algo extraordinário que me fizesse voltar a escrever. Mas eu sabia de uma coisa, uma hora isso ia acontecer: uma das coisas que mais garantidas na Ciência, é que coisas extraordinárias acontecem.

Uma das mais piadas (nerds) mais prontas no meu blog é que, bem, brontossauros não existem. Ainda no século XIX, a espécie Brontosaurus excelsus foi descrita apressadamente por Marsh. No entanto, depois se descobriu que o esqueleto que representava a espécie era muito parecido com outro gênero, Apatosaurus e, portanto, os dois gêneros deveriam ser unificados. Assim, como o gênero Apatosaurus fora descrito primeiro, o Brontosaurus excelsus se tornou Apatosaurus excelsus, extinguindo-se os brontossauros.

Trocas de nomes e gêneros são muito comuns em taxonomia, cujo trabalho equivale à pegar uma foto de pessoas andando na Paulista e tentar descobrir quem é mais aparentado de quem. Quando se trata de taxonomia de fósseis, a coisa é pior, pois a foto é preto-e-branco, está desfocada, puída e picada em mil pedaços, sendo que muitos deles foram comidos pelo seu cachorro.

O fato extraordinário é: o gênero Brontosaurus voltou! Um estudo extenso do grupo Diplodocidae que acabou de ser publicado no PeerJ, acaba de reorganizar todo o grupo o que resultou, fortuitamente (ou não), na volta do gênero Brontosaurus! Este estudo se destaca - creio - pelo o número de espécimes utilizados (81), junto com o número de caracteres morfológicos medidos (477) e a técnica utilizada para gerar os agrupamentos. Obviamente isso pode mudar em futuros estudos, mas guardarei para sempre este artigo para mostrar a detratores.

É bom sempre lembrar que estudos taxonômicos e análises filogenéticas não servem apenas para renomear coisas e agradar o autor deste blog. É com estes estudos que conseguimos entender um pouco mais sobre da história da vida na Terra, que conseguimos entender um pouco mais sobre a diversidade atual da vida na Terra e, por consequência, um pouco mais sobre como funciona a evolução.

Existem muitos motivos para eu ter parado de escrever no blog. A falta de tempo e a falta de motivação são dois deles. Além disso, críticas sempre chegam mais rápido do que elogios, então parece que estamos fazendo tudo errado. Quem sabe agora que o blog tem um nome taxonomicamente válido, eu me sinta mais à vontade para escrever?

Fontes:
Artigo de divulgação na Nature News
Artigo original no PeerJ (também fonte da imagem)