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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Segunda-feira
Abr232018

A rede Serrapilheira

Na semana passada, entre os dias 18 e 20 de abril, foi realizado um encontro do Instituto do Serrapilheira que contou com a participação dos 65 pesquisadores selecionados em sua primeira Chamada Pública, a equipe do Instituto, colaboradores e os membros dos Conselhos Científico e Administrativo.

O encontro, bastante intenso, incluiu treinamento para a gravação de vídeos e produção de textos para o público em geral, apresentações dos projetos, discussões sobre a diversidade na Ciência e divulgação científica. Mais importante que isto, houve o início da formação de uma comunidade Serrapilheira, uma propriedade emergente da interação que ocorreu durante o encontro.

Eu saí do Rio de Janeiro absolutamente serrapilhado, ainda não consigo dormir direito, algo raro. Fico pensando no nome do Instituto: a decomposição da serrapilheira, e o acesso ao seu tesouro energético e nutricional, é o objetivo de todas espécies que dependem dela, mas somente através da ação comunitária de diversas espécies, cada qual com sua especialidade, é que esta decomposição se viabiliza. De maneira geral, a ação da diversidade presente na serrapilheira é essencial para o retorno dos recursos lá presentes para o resto do ecossistema.

Mais do que capital financeiro, os R$100 mil iniciais e os desejados R$ 1 milhão, gostaria que os 65 primeiros contemplados com o projeto Serrapilheira se focassem no ganho de capital social e capital simbólico que o Instituto já nos dispôs. A rede que começou a ser construída neste encontro pode nos trazer inúmeras oportunidades se for fortificada e alimentada. Além disso, o sucesso do Instituto, e seus ideais, nos trará mais e mais reconhecimento nos próximos anos, principalmente se ele se tornar referência de excelência científica e seja copiado por outros. Por isso, é necessário que a gente trabalhe muito para que ter sido um dos selecionados nesta chamada - a primeira - seja algo que a gente vista com orgulho por muito tempo. Assim como na serrapilheira, o que muitos encaram como uma competição por recursos no curto prazo deve ser encarada como uma cooperação que se estenderá por anos e trará rendimentos muito maiores no longo prazo que um milhão de reais.

Segunda-feira
Mar262018

Como fazer laranjas vermelhas

 

Antocianinas são pigmentos que dão cor avermelhada à grande maioria das plantas. Curiosamente, antocianinas são raramente encontradas em Citrus, com algumas notáveis exceções: as laranjas sanguíneas. Os cultivares de laranjas sanguíneas, cultivados principalmente na Itália, possuem a polpa com uma cor forte avermelhada, muito bonita, mas somente se seus frutos passarem por um período de frio, o que torna sua produção pouco previsível e restrita à poucas localidades geográficas.

Um grupo de pesquisadores ingleses, italianos e chineses decidiu estudar os mecanismos que levam à cor vermelha nas laranjas sanguíneas. Se eles descobrissem este mecanismo, haveria a possibilidade de se tentar gerar variedades que façam estas laranjas sem a dependência do frio. Recentemente, este grupo descobriu que a produção de antocianinas depende de um fator de transcrição chamado Ruby, e este fator de transcrição possui um retrotransposon em sua vizinhaça.

Retrotransposons são sequências de DNA que podem se copiar e inserir em outros locais do genoma de um organismo.  Estes retrotarnsposons ficam bastante ativos em condições de estresse, levando ao aumento da atividade de Ruby. Assim, durante o estresse trazido pelo frio, Ruby fica ativo, e induz a produção de antocianinas nas laranjas, deixando-as vermelhas. Quando estes pesquisadores colocaram Ruby em tabaco, a fim de confirmar a sua função, suas folhas ficaram avermelhadas. Além disso, Ruby geralmente está inativo no gênero Citrus, justificando a ausência de cor vermelha neste grupo.

O mais curioso é que um cultivar antigo de laranja sanguínea, chinês, também possui um retrotransposon perto de Ruby. Este retrotransposon é diferente do encontrado nos cultivares italianos, indicando uma origem independente. Assim, como nos outros cultivares, o cultivar chinês também depende de frio para ficar avermelhado.

Agora que entendemos como as laranjas sanguíneas ficam vermelhas, podemos desenvolver métodos para desenvolver cultivares que não dependam do frio. Além de deixar as laranjas muito bonitas, antocianinas são antioxidantes e podem ser muito benéficas à saúde.

Imagem: Wikipedia

Fonte: Butelli, E., Licciardello, C., Zhang, Y., Liu, J., Mackay, S., Bailey, P., Reforgiato-Recupero, G., & Martin, C. (2012). Retrotransposons Control Fruit-Specific, Cold-Dependent Accumulation of Anthocyanins in Blood Oranges THE PLANT CELL ONLINE DOI: 10.1105/tpc.111.095232

Quinta-feira
Mar222018

Onde está o sci-hub?

Uma das pergunats mais frequentes no laboratório: qual é o endereço atual do sci-hub? Uma alma caridosa criou uma página para responder as nossas perguntas: Where is Sci-Hub Now?

Quarta-feira
Mar212018

I rebel

 

Recentemente fiquei sabendo que uma professora falou, anos atrás, sobre a possibilidade de eu ser contratado por sua instituição: “Não, ele vai dar muito trabalho!”. A minha reação imediata foi sorrir e pensar: “Nossa, ela me conhece mesmo…”.

 

Só que agora acho que discordo do que esta professora falou: geralmente são as instituições que me dão trabalho! São elas que tomam decisões anti-democráticas, ou anti-profissionais, ou anti-éticas. E eu tenho dificuldades em baixar a cabeça diante estas decisões. Mas sempre que “dei tabalho” foi em reação a algo. Incrivelmente, já foram 7 anos contratados e nada de dar trabalho onde estou e ficarei contente se continuar assim por muito tempo.

 

Obviamente  isso não é só sinal de maturidade, como alguns devem estar pensando. Eu continuo com um padrão conhecido de subverter o tradicional e o costumeiro quando estes não fazem sentido. Eu continuo sendo o ponto extremo nas curvas de distribuição.  E vou continuar a reagir se for provocado.

Sexta-feira
Dez012017

A graduação acontece entre as aulas

Há um texto circulando por aí sobre não entrar na universidade no ano que vem. Eu até concordo que se entra muito cedo na universidade, mas a raiz do problema que o autor teve não está em sua entrada na universidade, mas sim de como ele entende a graduação e até como seus professores entendem a graduação.

Esta não será uma opinião popular, mas a sua graduação acontece no espaço de tempo entre suas aulas. Claro, aulas são importantes, elas vão te ensinar o básico sobre a sua área, mas não são tão importantes quanto o que você faz no resto do seu dia. É no espaço entre as aulas que você vai fazer os seus contatos profissionais mais importantes, que você vai aprender a aprender e se manter atualizado, que você vai se tornar um empreendedor, que você vai expandir sua mente para além da sua graduação, e que você irá aprender sobre sua profissão, fazendo estágios e outros trabalhos. Por incrível que pareça, formar-se um profissional é muito mais do que tirar notas altas. Não é à toa o número de pessoas famosas que nunca terminaram Harvard: entrar em Harvard e viver Harvard (ou qualquer grande universidade) muitas vezes é o suficiente.

Voltando ao autor do texto, ele disse que só se sentiu realizado após entrar em uma empresa júnior, ao voluntariar na organização de um TEDx e ao trabalhar em um laboratório. Tudo isso que ele fez é o que realmente está preparando-o profissionalmente. Mas não se engane, estas oportunidade só aconteceram porque ele ENTROU na universidade primeiro. Porque a universidade serve para isso e não só para te dar créditos.

Dito isto, confesso que vejo muitos cursos de graduação aumentando a sua carga horária - muitas vezes reduzindo as disciplinas básicas para ampliar disciplinas especializadas. Não serei popular, mas creio que estes cursos estão completamente enganados. Eles tomam estas atitudes para melhorar a formação do profissional mas eles acabam gerando hordas de alunos esgotados mentalmente e profissionais sem experiência nenhuma. Caro leitor que se sente esgotado pelas pressões de seu curso: a culpa não é sua. A culpa não é sua.

Qual é a minha sugestão? Se sua situação financeira o permitir, reorganize sua grade horária e faça menos créditos no ano que vem. Procure um estágio, um trabalho voluntário, integre o movimento estudantil. Reserve um tempo para estudar coisas que não irão cair na prova mas te interessem. Vá a palestras, faça mini-cursos, leia coisas diferentes, agarre oportunidades diferentes. Crie seu movimento estudantil, organize seus eventos, crie. Não espera uma disciplina de graduação sobre empreendedorismo, empreenda. Não se esqueça de lutar por cargas horárias menores, por auxílios financeiros aos estudantes, bolsas e outras políticas que poderiam ajudar os que precisam trabalhar entre as salas de aulas. Viva a universidade e você sairá dela mais graduado que seus colegas.  Viva a universidade.