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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Quarta-feira
Dez042013

Dispersando Dadá

Era domingo à noite e o carro seguia pela estrada. Lá dentro, a família toda viajava quieta, cansada por causa do final de semana no sítio do vô Ângelo. Dadá era o único que ainda parecia ter alguma energia e não parava de tirar carrapichos da sua meia. Dizia ele que já havia tirado mais de cem mas Guto, seu irmão mais velho, achava que era exagero.

Olhando as estrelas, Guto pensava quantos mundos o olhavam de volta. De repente, seus pensamentos se foram por causa de uma forte alfinetada no pescoço. Mexendo na gola da sua camiseta ele descobre o motivo da espetada: carrapichos! Mas como eles foram parar ali? O mistério não durou muito, pois Guto logo viu que Dadá estava se segurando para não gargalhar.

- Dadá, você vai ver só! – disse Guto, jogando as bolinhas espinhentas na cabeça do irmão.

- Manhêêêê! O Guto está jogando carrapichos em mim! – reclamou Dadá, se fazendo de vítima.

- Podem parar os dois! – respondeu Dona Júlia – E recolham todos estes carrapichos que não quero ver nenhum nas suas roupas! – emendou, lembrando-se do dia em que uma meia cheia de carrapichos foi colocada na sua máquina de lavar.

- Mas nada de esconder os carrapichos debaixo do tapete do carro, hein! – completou seu Antônio, já experiente nas técnicas de limpeza dos seus filhos.

Contrariados, os dois irmãos passaram a recolher os carrapichos espalhados pelo carro e a colocá-los no cinzeiro.

- Por que estas malditas coisas espinhentas vivem grudando nas nossas meias? – perguntou Dadá.

- Elas só estão fazendo o trabalho delas. - respondeu Guto, que era bem mais velho que Dadá e fazia faculdade de biologia. - Como são cheios de espinhos, os carrapichos, que nada mais são que frutos, se grudam facilmente em animais. Então, as sementes são levadas para longe da sua planta-mãe.

- E porque os carrapichos iriam crescer longe da família? – perguntou a mãe, sensibilizada.

- Simples, para conquistar o mundo! – brincou Guto – Algumas plantas são tão boas em se espalhar por aí que podem ser encontradas no mundo inteiro, como certas gramas. Uma possível razão para isso é que a mãe carrapicheira pode estar vivendo em um lugar que não pega muito sol ou que não tenha muitos nutrientes no solo. Se seus frutos pegarem uma carona para longe, existe a chance de suas sementes crescerem em um lugar melhor. Dessa forma, a planta-mãe pode garantir um número maior de netos e bisnetos. Sucesso, na natureza, pode ser medido pela quantidade de descendentes espalhados pelo mundo.

- Mas… E se o lugar que a mãe viver já for bom? – perguntou seu Antônio.

- Bem, se as sementes crescerem ao redor da carrapicheira-mãe, elas podem acabar competindo com ela por luz, água e outras coisas. Pais e filhos saem prejudicados. – explicou Guto.

- É verdade! Antes de vocês crescerem eu e sua mãe podíamos assistir ao que queríamos na televisão. Agora, vocês sempre querem assistir outra coisa ou jogar videogame na hora da novela! – reclamou seu Antônio – Mas, mudando de assunto: se ter frutos espinhosos é bom para espalhar as sementes, porque as outras plantas não copiam esta idéia? Por que os morango não são cheio de espinhos?

- Mas aí que está! Quase todas as plantas tem algum jeito de dispersar, isto é, espalhar suas sementes pelo mundo afora. O morango, por exemplo, tem sementes tão pequenas que a gente acaba comendo. Em vez das sementes pegarem uma carona grudadas no nosso corpo, elas vão de primeira classe, no nosso estômago! – respondeu Guto.

- Como que as sementes saem depois? – perguntou Dadá.

- Como é que as coisas que a gente come saem do nosso corpo? – respondeu Guto, dando risada.

- Que nojento! – percebeu Dadá.

- Se você pensar bem os morangos ganham duas coisas de uma vez só: carona e adubo ao mesmo tempo! Em troca, os passarinhos, macacos e outros animais ganham o almoço. – continuou Guto - A mesma idéia serve para as outras frutas gostosas: mamão, jabuticaba, cereja, manga…

- Um momento, filhão! O máximo que uma semente manga vai conseguir fazer é entupir todo o encanamento! Afinal, a semente é o caroço dessa fruta, não é não? – perguntou o pai.

- No caso da manga, macacos podem carrega-lá para comer em outro lugar. Outros animais também fazem isso. Morcegos carregam castanhas para comer longe da castanheira e a gralha-azul enterra as sementes da araucária para comer depois, mas algumas acabam nascendo. – contou Guto.

- E as plantas que não têm frutos espinhudos ou gostosos, como que fazem? – pergunta dona Júlia.

- Existem muitos jeitos de dispersar sementes. Os frutos podem voar por aí como os do dente-de-leão, uma planta que a gente adora assoprar, justamente porque se desfaz a cada sopro. Há frutos ou sementes que flutuam na água. Outros frutos explodem, arremessando as sementes para longe, como os da maria-sem-vergonha. – respondeu Guto. De repente, Dadá começa a recolher todos os carrapichos do cinzeiro e diz:

- Pai, abre um pouquinho a janela para mim?

- Abro, mas por quê, filhão? – perguntou o pai.

- Eu vou jogar os carrapichos pela janela e ajudar a mãe-carrapicheira a espalhar suas sementes pelo mundo! – respondeu Dadá.

Guto gostou da attitude do irmão.

- Muito bem, Dadá. A carrapicheira faz um monte de carrapichos, pois nem todas as sementes germinam, mas a gente não deve atrapalhar ainda mais o seu trabalho, não é mesmo?

- É isso aí! – concordou Dadá, observando o vento jogar todos os carrapichos longe, no meio da vegetação que crescia à beira da estrada.

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