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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Quarta-feira
Dez042013

Dadá e as plantas carnívoras

- Mãe! Olha só! Eles estão vendendo plantas carnívoras! Compra uma para mim? - perguntou Dadá com os olhos arregalados.

Dona Júlia olha desesperadamente para o seu Antônio, que só ri. Fazer compras com Dadá é sempre assim, qualquer coisinha diferente ele pede. É curioooso!

- Está bem, Dadá, mas você que cuida - respondeu a mãe, já sabendo que ia sobrar para ela.

- Oba! O Guto vai me ajudar a cuidar! - diz Dadá enquanto pega um vasinho minúsculo.

A viagem para casa foi cheia de perguntas: O que será que ela come? Se ela crescer bastante a gente pode usá-la como cão de guarda? E se ela sair do controle? É melhor ela ficar no quarto do Guto que é maior. Já sei: vamos treiná-la, assim ela só come quem a gente quiser! Que nome eu vou dar para ela?

A primeira coisa que o Dadá fez ao chegar da feirinha foi chamar o irmão mais velho, que ainda dormia. “Guuuuuuto! Olha só o que a mãe comprou! Você que vai cuidar!”

Guto se levanta, ainda com a cara amassada, e vai para a sala. “O que está acontecendo?”, pergunta ele, colocando seus óculos.

- Uma planta carnívora! Vou chamá-la de Tânia. Olha só os dentinhos dela! Mal posso esperar para levá-la para a escola! São perigosas? - pergunta Dadá, nas pontas dos pés, mostrando o vasinho para o seu irmão.

- Ah… Uma dionéia! Que bonita! Eu vi dessa lá na faculdade! Sabia que as dionéias são plantas nativas do México e dos Estados Unidos?

Guto tem 19 anos. Ele estuda Biologia. Ainda está no primeiro ano, mas já sabe um monte de coisas sobre a vida, o universo e tudo mais. Dadá tem apenas seis anos de idade. Os dois são filhos da Dona Júlia e do seu Antônio que se divertem muito com eles.

- Mas elas são perigosas? - insiste Dadá.

Guto começa a dar risada e responde: “Não, elas só são perigosas se você tiver o tamanho de uma mosca.”

- Mas agora elas são filhotes, quando elas crescerem elas vão até te pegar! Daí o papai vai ter que pegar você no estômago dela!

- Mas estas plantas já estão crescidas, quer dizer, elas não vão crescer muito mais do que isso. Aliás, as plantas carnívoras não têm estômago. Isto que parece uma boca é, na verdade, uma folha meio diferente.

- Mas, Guto, se ela não tem estômago, como é que ela come?

- Na verdade, Dadá, ela come como qualquer planta: ela usa a energia do sol, o gás carbônico do ar e a água da terra para fazer o seu próprio alimento.

- Então me enganaram? Elas não vão pegar nenhum inseto? - indignou-se Dadá.

- Não é bem assim, estas plantas pegam insetos sim. É até mais correto chamá-las de plantas insetívoras, já que são poucas as espécies que se alimentam de outros pequenos animais. Algumas pegam lesmas, aranhas. Outras, mais raras, pegam até pequenos sapos. No caso dessa planta que você comprou, quando um animalzinho toca nessas folhas que têm dentinhos, elas se fecham e prendem a mosca - respondeu pacientemente o irmão.

- Mas que mosca boba! Porque ela vai pousar na folha, se ela vai ser comida? É como se um pernilongo voasse até as suas mãos quando você batesse palmas! - comentou a mãe.

- Bem, as plantas carnívoras têm vários jeitos de atrair moscas até as suas folhas. El as podem ter alguma cor atraente, alguma forma interessante, um cheiro gostoso.

Dadá imediatamente bota o nariz na planta carnívora e cheira as suas folhas: “Mentira! Essa não tem cheiro de nada!”

- Para você, mas para as moscas é um aroma irresistível. Ah! Lembrei de uma coisa, eu tenho um livro interessante que tem fotos de outras plantas carnívoras que existem.

Guto se levanta apressado, corre para o seu quarto e volta com um livro cheio de fotos: “Olha aqui. Essa é a drósera, também conhecida como papa-moscas. Ela tem pêlos que grudam nas suas presas e é nativa do Brasil. Esta aqui, a sarracênia, encontrada em áreas montanhosas dos Estados Unidos. Elas têm um copo onde os animaizinhos caem e não conseguem mais escapar.”

- Uma coisa não ficou clara, Guto - interrompe o pai - Você disse que as plantas carnívoras fazem o seu próprio alimento, como as plantas da mamãe, certo? Então, porque elas capturam animaizinhos?

- É o seguinte: as plantas fazem o seu próprio alimento, mas precisam tirar a matéria-prima do seu ambiente. O gás carbônico ela tiram do ar, por isso nunca falta, mas ela precisa de alguns nutrientes presentes no solo. Para fazer proteínas, por exemplo, as plantas precisam de nitrogênio, mas, se o solo não tiver quantidades suficientes desse nutriente, elas não vão crescer e podem até morrer - explica Guto.

- É como quando o seu pai teve que colocar fertilizantes nas nossas plantas para elas ficarem mais fortes? - lembrou a mãe.

- É, alguns fertilizantes fornecem nitrogênio para as plantas. Só que na natureza não tem quem coloque fertilizante nas terras, então algumas plantas inventaram de pegar os nutrientes que elas precisam capturando animaizinhos. Muitas plantas carnívoras vivem em terrenos pobres em nutrientes, mas sobrevivem por causa dos animais que elas pegam - completou Guto.

- Mas nesses ambientes também existem outras plantas. Todas são carnívoras? - perguntou o pai.

- Bem, aí já é outra história. Essas plantas têm outras formas de arranjar os nutrientes que faltam para elas - respondeu Guto.

- Guto, como que a planta pega os nutrientes da mosca que ela prendeu se ela não tem estômago? - perguntou Dadá.

- Essa folha cheia de dentinhos joga substâncias na mosca, parecidas com as que o nosso estômago joga nos alimentos, que digerem a coitada. Daí, as mesmas folhas começam a pegar os nutrientes.

- Então essa planta não vai ficar do meu tamanho? - perguntou Dadá sério.

- Não.

- Não vai servir para espantar os ladrões?

- Não.

- Não vamos poder dar o cachorrinho da vovó para ela comer?

- Não.

- Nem vou poder assustar os meus amigos?

- Não.

- Mãe, podemos trocar a Tânia por uma onça?

publicado originalmente em Ciência Hoje das Crianças 135, maio 2003

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