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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Quarta-feira
Dez042013

As batatas da tia Camila

Sempre que Dadá tem lição de casa, a família toda tenta ajudar. Dessa vez, ele tinha de fazer uma pesquisa sobre as batatas. Como a batata é um vegetal e todo vegetal é um ser vivo e biólogos estudam seres vivos, ele logo foi pedir ajuda ao irmão mais velho, Guto, que está na faculdade de Biologia:

- Está bem Dadá, eu te ajudo! - respondeu Guto. - Anota aí: as batatas são o que a gente chama de tubérculos, que são uma espécie de armazém de alimento para as plantas. Mas eu não vou te dar todas as informações, só algumas dicas. Procure a relação das batatas com a Irlanda, as Solanaceae, os incas, a tia Camila e o Machado de Assis. Dadá anotou as dicas e perguntou:

-Mas o que a tia Camila tem a ver com batatas?

-Ah… Isso você que tem de descobrir! -respondeu o Guto, todo misterioso.

O primeiro lugar que Dadá pesquisou foi na enciclopédia que ele tem em casa. Logo, ele achou o que queria: “Solanacea é uma família de plantas cujas flores, geralmente roxas, possuem cinco pétalas. As plantas dessa família podem ser encontradas no mundo inteiro; podem ser arbustos, árvores ou moitas baixas. Entre os representantes desta família mais importantes para o homem estão as espécies da batata, tomate, berinjela, pimentão, pimenta, jiló e o tabaco. Suas flores vistosas atraem principalmente insetos que se alimentam do pólen ou néctar, os frutos são geralmente dispersos por aves.”

Ele anotou rapidinho todas as informações que achou interessante e, quando estava indo procurar outras coisas, dona Júlia, que lia um livro na sala, perguntou:

- Dadá, o que você está pesquisando?

- Estou procurando informações sobre a batata. - respondeu Dadá. - Mãe, você conhece um tal de Machado de Assis?

- Conheço, e muito bem! Já li quase todos os livros dele. Ele viveu no começo do século 19 e é um dos maiores escritores brasileiros! Por acaso, eu estou lendo Quincas Borba, um conhecido livro de sua autoria.

- E ele já escreveu um livro sobre as batatas? - perguntou Dadá.

- Não, por quê? - respondeu dona Júlia, estranhando a pergunta.

- O Guto disse que ele tinha algo a ver com elas!

A mãe abriu um sorriso e respondeu:

- Eu já sei o porquê! Acabei de ler essa frase no livro: “Ao vencedor: as batatas!”

- O quê? - disse Dadá, com cara de interrogação.

- No livro, Quincas Borba é um filósofo muito rico que mora na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ele acredita que as pessoas têm de batalhar pela sua sobrevivência e, para exemplificar, sempre conta a história de duas tribos que tinham batatas suficientes para alimentar só uma delas. Elas poderiam reparti-las e morrer as duas de fome ou poderiam disputá-las. A tribo vencedora estaria alimentada o suficiente para mudar para um lugar onde houvesse mais comida; a derrotada morreria de fome. Eu ou você podemos não concordar com essa idéia, mas assim pensava o protagonista da história. - explicou a mãe.

- E foi assim que surgiu a expressão “ao vencedor, as batatas”? - perguntou Dadá.

- Sim - confirmou dona Júlia.

- Ah… Obrigado, mãe! - respondeu Dadá, sem entender muita coisa. No entanto, ele estava feliz por ter resolvido duas dicas do irmão. Dali, foi falar com o pai, que estava na cozinha preparando o jantar.

- E aí, filhão? Quer uma batata frita? Cuidado que está quente! - ofereceu o seu Antônio.

- Eu estou fazendo uma pesquisa sobre batatas e preciso de ajuda! - respondeu Dadá, com a boca cheia de batatinhas e aliviado por não ter de brigar com ninguém para comê-las.

- E o que você quer saber? Sobre como fritar batatas? Fazer purê? Batatas-palha? - brincou o seu Antônio.

- Não, pai! O que as batatas têm a ver com a Irlanda?

- Essa pergunta é batata! - piscou o pai, querendo dizer que a pergunta era muito fácil. - Os irlandeses comem muita!

- Só isso? A gente também come um monte de batata! - comentou Dada.

- Espera um pouco, deixe-me completar: No final do século 18, os irlandeses eram um povo muito, mas muito pobre, que praticamente só tinha batata como alimento. Acontece que, na época, uma terrível doença acabou matando quase todas as batatas da Irlanda. Era um fungo preto que deixava as plantas fraquinhas, fraquinhas e as batatas miudinhas - explicou o pai.

- Se não tinha mais batata, o que os irlandeses comiam, então?

- Aí que está: não comiam. Foi um tempo de muita fome para os irlandeses. Muitos morreram, outros tiveram de abandonar as suas casas e procurar um novo lugar para viver. Foi por causa da praga das batatas que milhões de irlandeses se mudaram para os Estados Unidos.

- E os incas, o que eles têm a ver com as batatas? - perguntou Dadá, achando que já ia terminar o dever de casa.

- Que batata-quente essa! - exclamou seu Antônio, espantado com a pergunta complicada - Eu não sei a resposta dessa daí.

Como só faltava resolver duas dicas, Dadá foi para o computador procurar informações na Internet. Em um endereço na rede, ele achou a relação entre os incas e a batata: “Apesar de ser um alimento bastante popular na Europa, as batatas são originárias das Américas. Os espanhóis, quando encontraram os incas, conheceram muitas plantas novas, como o milho e a batata.”

Agora, só faltava descobrir o que as batatas têm a ver com a sua tia Camila. Ele pensou, pensou e não descobriu nada. Foi perguntar para o pai, que agora estava lavando a salada; foi perguntar para a mãe, que continuava a ler o seu livro. E ninguém sabia a resposta. Desesperado, até ligou para a sua tia, que não sabia nada de novo sobre batatas. Já desistindo, ele foi falar de novo com o irmão, que estava estudando:

- Guto! - gritou o pequeno pesquisador.

- Fala, Dadá, como é que está o seu trabalho?

- Eu já escrevi um monte de coisas! Veja só: “As batatas são produzidas por plantas parentes das espécies que produzem tomate, berinjela, jiló e pimentão. Mas elas são tubérculos e não frutas. Os tubérculos são caules ou raízes que servem de depósito de alimento para as plantas. Os incas, quando descobriram isso, passaram a pegar as batatas das plantas para comer, mas daí vieram os espanhóis, que pegaram as batatas dos Incas e as levaram para a Europa. Assim, os europeus começaram a comer um monte de batata. No Brasil, o Machado de Assis viu toda essa briga e criou o Quincas Borba, que dizia: ’Ao vencedor, as batatas!’ Só que na Irlanda as batatas ficaram doentes e não sobrou mais nenhuma, nem para os vencedores. Muitos irlandeses morreram de fome; muitos dos que sobreviveram acabaram indo para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e, talvez, de mais batatas. Hoje em dia, tem um monte de batata no mundo e mesmo assim ainda tem muita gente passando fome. Para terminar, apesar de termos parado de brigar pelas batatas, continuamos brigando por muitas outras coisas.”

Guto ouviu a redação com orgulho do seu irmão caçula e elogiou:

- Que legal, Dadá! Ficou muito boa sua redação! Você usou todas as dicas!

- Quase todas… Eu só não descobri o que as batatas têm a ver com a tia Camila! - disse Dadá, meio desanimado.

Guto deu uma risadinha e respondeu:

- É que a tia Camila fez ginástica demais quando era menor e agora ela tem as maiores batatas da perna que eu já vi! - e caiu na gargalhada.

- Ah, Guto, vá plantar batatas! - respondeu Dadá, que não achou graça na piadinha do irmão.

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