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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Quarta-feira
Dez042013

Aipim, mandioca, macaxeira e companhia

Vítor convidou Dadá para ir brincar com ele depois da aula de natação. Vítor é seu amigo desde que eles aprenderam a nadar juntos. Os dois estavam famintos quando chegaram na casa do Vítor. Enquanto tomavam um lanche na cozinha, Vítor pergunta para sua mãe:

- O que vamos ter para almoçar hoje?

- Eu vou fazer arroz com jerimum e fritar um pouco de macaxeira. Ah! Eu comprei umas bergamotas na feira para a sobremesa! – respondeu a mãe, ocupada com as panelas.

Dadá ouviu esses nomes diferentes, estranhou mas não falou nada pois não queria parecer mal-educado. Ele ficou a manhã inteira imaginando o que é que a mãe do Vítor havia preparado no almoço. Estava tão preocupado que até perdeu no futebol, coisa que nunca acontecia. Dadá ficou mais tranqüilo quando percebeu que o almoço era, na verdade, arroz com abóbora, mandioca frita e mexericas.

Na hora do jantar, já em casa, Dona Júlia perguntou ao Dadá como tinha sido a manhã na casa do Vítor, se ele tinha se comportado, tinha comido tudo no almoço, essas coisas de mãe:

- Comi tudo sim! A tia Rute é uma ótima cozinheira, apesar de falar os nomes das comidas tudo errado! – respondeu Dadá.

- Como assim, tudo errado? – perguntou Seu Antônio, o pai.

Dadá explicou para a família, pacientemente, tudo o que tinha acontecido: como a família do Vítor chamava as abóboras de jerimum, mandioca de macaxeira e mexerica de bergamota.

- Dadá, não é que eles falem errado! Eles só têm nomes diferentes para as coisas. Você sabe que o Vítor vive mudando de casa e que ele já morou em Santa Catarina, na Bahia e em vários outros lugares. Como cada região tem um nome próprio para as coisas, às vezes ele fala um nome diferente. Pipa por exemplo, pode ser papagaio, quadrado ou até pandorga dependendo do estado. – explicou Seu Antônio que sempre viajou muito.

- É, além de macaxeira, tem lugares que chamam a mandioca de aipim ou biz. Já as mexericas têm zilhares de nomes populares como bergamota, mimosa e mandarina. – completou Guto, o irmão mais velho do Dadá.

- Mas como é que eles querem que a gente entenda tudo isso? – perguntou Dadá, bastante confuso.

- Com paciência. Quando a gente quer se comunicar, sempre se dá um jeito. Quando a gente não quer, nem adianta tentar. – falou a mãe, se lembrando dos conflitos que sempre aparecem na televisão.

Guto, que está no primeiro ano da faculdade de Biologia, explica:

- É verdade, na Biologia, por exemplo, para saber que uma espécie que tem um nome aqui é a mesma que tem um outro nome ali, inventamos os nomes científicos!

- Como assim? - pergunta o pai.

- Todos já ouviram falar de Homo sapiens, não ouviram?

- É a gente! – respondeu Dadá, se lembrando de um documentário que viu na televisão.

- Sim, este é o nosso nome científico. – explica Guto - Ele tem duas partes, como se fosse o nosso nome completo. O primeiro nome, Homo é o nosso gênero. Ele seria como o nosso sobrenome pois indica quem é mais parecido com a nossa espécie. O segundo nome, sapiens serve para diferenciar as espécies. Esse segundo nome só tem valor mesmo quando está com o primeiro, por isso nunca aparece sozinho.

- Não entendi nada! – diz Dadá, confuso.

- É fácil! O nosso sobrenome, Ramos de Oliveira, é comum a todos nós, o que indica que somos parentes. Já o nosso primeiro nome, Gustavo, Danilo, Antônio e Júlia, serve para diferenciar cada um de nós. Danilo, por exemplo, não ajuda a identificar quem você é dentro da sua escola porque tem várias pessoas com o mesmo nome, no entanto, Danilo Ramos de Oliveira serve para te identificar completamente.

- É, mas podem existir pessoas com nomes iguais, como um amigo que trabalhou comigo. Ele se chamava José Maria da Silva. Só ele já tinha encontrado umas quatro pessoas com o mesmo nome! – se lembra seu Antônio – Isso também acontece na Biologia?

- Acontece algo parecido. É freqüente uma mesma espécie ter mais de um nome, daí vale o mais antigo. Às vezes acontece de uma espécie ser, na verdade, mais de uma. Menos freqüente é ser mais de um gênero. Sem contar que muitas espécies trocam de gênero ao longo do tempo. 

- E porque isso acontece? – pergunta o pai, achando as pessoas que dão nomes às espécies um tanto malucas.

- É porque algumas espécies se parecem com outras de início mas uma análise mais detalhada mostra que isso não é verdade. Quem que vocês acham que é mais parecido com a onça: o tigre ou a jaguatirica?

- É a jaguatirica! – respondeu rápido Dadá – as duas têm pêlos amarelos e um monte de pintinhas, enquanto o tigre é laranjas e tem listras.

- Sem contar que as duas primeiras são brasileiras e o último, asiático. – completou o seu Antônio, para surpresa de todos.

- Viu? É óbvio que as duas são mais parecidas! – concluiu Dadá.

- É, tão óbvio que não são. – corrigiu Guto – O nome científico da onça é Panthera onca, o do tigre é Panthera tigris e, o da jaguartirica, é Leopardus pardalis. Panthera e Leopardus são os sobrenomes desses bichos ou melhor, o seu gênero. Assim podemos concluir que a onça e o tigre são mais parecidos que a jaguatirica porque são do mesmo gênero.

- Mas só por isso? Eu ainda acho que estava certo. – falou Dadá, ainda inconformado com a correção do irmão.

- Não, teimosinho. Pessoas que estudam estes animais listaram diversas características dos três e concluíram isso. Esses especialistas são os taxonomistas. Eles fizeram uma lista de semelhanças entre a onça e o tigre e verificaram que os dois são tão parecidos que deveriam ter o mesmo sobrenome, ou melhor, o mesmo gênero. – explicou Guto.

- E o trabalho deles é só esse, de ficar comparando os animais e dando nomes para eles? – perguntou Dona Júlia, curiosa.

- Não é. Ficar comparando animais, e outros seres vivos, ajuda a gente a descobrir o parentesco entre eles. Acreditamos que todas as formas de vida neste planeta tiveram um parente comum. Comparando as diferentes espécies podemos ter idéia de quem é mais parecido com quem. Daí podemos juntar os seres vivos em grupos parecidos entre si.

Agora todos prestavam atenção na explicação do Guto. O Dadá achou estranha a idéia de ter algum parentesco com a samambaia de casa, ela é tão quietinha enquanto ele é sempre tão agitado!

- Vou dar o exemplo do ser humano. – continuou Guto – Somos do Reino Metazoa, isso quer dizer que somos mais parecidos com os todos os animais do que com todos os fungos, bactérias e plantas. Dentro desse Reino somos do Filo Chordata, o que nos torna mais parecidos com os sapos, aves, peixes do que das estrelas-do-mar, minhocas e insetos. Somos também da Classe Mammalia.

- Já sei! – interrompeu Dadá todo feliz - É o grupo dos mamíferos. São os animais que têm pêlos e mamam quando filhotes. Diferente das aves, dos peixes, répteis e anfíbios.

- Muito bem, Dadá! – elogiou o irmão – Dentro dos mamíferos somos da Ordem dos primatas, o grupo que inclui todos os macacos. De todos os macacos, so

mos mais parecidos com o chimpanzé, gorila e orangotango, nesta ordem. Por isso formamos a família dos hominídeos.

- Quer dizer que essa história da gente ser parente dos macacos não é brincadeira? – perguntou a mãe.

- Isso explica muita coisa. – respondeu o Dadá, se lembrando do primo Pablo comendo a macarronada da vó, com seus cabelos compridos quase dentro do prato.

- Enfim, dentro da Família Hominidae, pertencemos ao gênero Homo. – terminou de explicar Guto.

- E há mais alguém que tem o mesmo gênero que nós? – perguntou o pai.

- Sim, houve. Atualmente conhecemos fósseis de hominídeos que podem ter sido os nossos ancestrais ou parentes muito próximos como o Homo habilis e o Homo erectus, por exemplo.

Enquanto o Guto continuava a falar inúmeros nomes científicos, que mandioca (ou macaxeira, ou aipim) é Manihot esculenta, mexerica é Citrus reticulata e abóbora é Curcubita pepo; o telefone começa a tocar e o Dadá vai atender. Quando ele volta o irmão pergunta:

- Quem era Dadá?

- Era engano. Uma menina procurando um tal de Gus.

Assim que o Guto ouviu o irmão ele ficou branco e depois vermelho:

- Menina? Gus? Era a Graziela que eu conheci na festa do Rodrigo! Eu fiquei insistindo um tempão para a gente sair juntos e ela disse que ia me ligar! E eu nem tenho o telefone dela para responder!

- Mas então porque ela não pediu para falar com você, Guto? – perguntou Dadá, sem entender nada.

- Dadá, acorda! Meu nome é Gustavo, em casa vocês me chamam de Guto mas na turma do Rodrigo sou chamado de Gus! Agora ela vai pensar que eu passei o número errado para ela e nunca mais vai querer sair comigo! – choramingou Guto, exagerando um pouquinho – A culpa é toda sua Dadá!

- Culpa minha nada! Como que eu ia saber que te chamavam de outro jeito? Da próxima vez vê se usa o seu nome científico, senhor Gustavo Ramos de Oliveira!

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