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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Domingo
mar242013

Sobre as redações do ENEM

Sei que este assunto já veio e já passou, mesmo assim ainda tenho uma ou outra coisa a comentar. Vi muitas opiniões diversas sobre se uma prova nota 1000 poderia ou não ter erros ortográficos ou se uma redação que contem uma receita de miojo poderia, sequer receber nota. No entanto, alguns fatos importantes sobre ambas redações foram deixadas de lado, e é sobre estes fatos que vou comentar.

 

Primeira coisa a saber: O que a mídia não diz também é uma informação importante. Em teoria, é fácil ler um texto e compreender as informações contidas nele. No entanto, para se entender mesmo um texto e o que ele quer dizer, muitas vezes precisamos analisar as informações que ele não apresenta. Isso mesmo. Os veículos que divulgaram a informação não são meros transmissores de informação. Eles têm interesses que ficam claros ao se ler a matéria. Algumas informações que são ocultadas em ambas notícias:

 

  • Quais os critérios da correção da prova? Como que se dá a correção da prova?
  • As notas dadas violam os critérios de correção estabelecidos pela organização da prova?
  • A redação do miojo foi publicada na íntegra. Onde está a íntegra das redações do ‘trousse’, a do ‘enchergar’ ou a do ‘rasoável’?
  • Obter 560 na Redação, nota atribuída ao aluno do miojo, é bom? Quais cursos e de que universidades um aluno com esta nota teria chances de passar?
  • Se a nota 1000 é inadequada, qual seria a nota a ser dada ao aluno do ‘trousse’?

 

 

Quanto vale um erro? OK, vamos assumir que o aluno do ‘trousse’ deveria ser penalizado pelo erro de ortografia. Quanto ele deveria receber pela redação? Pelos critérios de correção, ele pode tirar 0, 40, 80, 120, 160 ou 200 no critério “Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita”. Logo, por causa de seu erro, ele deveria tirar 960, certo? Ou seja, 40 pontos a menos (8 pontos no SISU). Em um concurso que um ponto pode te colocar em uma universidade ou não, é um preço meio salgado, não? Veja bem que, afora este erro, a redação provavelmente foi impecável, uma vez que ele tirou nota máxima na opinião de dois corretores e a notícia de jornal não achou mais nada de errado na redação. 

 

E o que dizem as regras? Vamos lá (grifo meu):

 

“200 pontos - O participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. Assim, o mesmo desvio não ocorre em várias partes do texto, o que revela que asexigências da norma padrão foram incorporadas aos seus hábitos linguísticos e os desvios foram eventuais. Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta O participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. Assim, o mesmo desvio não ocorre em várias partes do texto, o que revela que as exigências da norma padrão foram incorporadas aos seus hábitos linguísticos e os desvios foram eventuais. Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta”

 

Pelo que interpretei, um desvio ortográfico, ocorrendo apenas uma vez no texto, pode sim ser relevado. Ou seja, redação nota 1000 e ‘trousse’ pode sim, Arnaldo

 

Obviamente pode-se questionar os critérios de correção utilizados pelo governo. Se as notas não variassem de 40 em 40, mas de 10 em 10, provavelmente o aluno do ‘trousse’ não tiraria 1000. Eu, pessoalmente, acho que um erro isolado, feito em uma situação de estresse e que não compromete o entendimento do texto, pode ser tranquilamente relevado. 

 

Bom, agora chegamos é situação do miojo. Na minha opinião, achismo mesmo, 560 não é uma nota boa e não permitiria o aluno entrar em um curso concorrido. Digo isso porque acompanhei o caso de uma pessoa que queria fazer Estatística, que não é um curso muito concorrido, e vi que notas abaixo de 800 dificilmente resultam em cursos conceituados ou em universidades situadas em cidades/estados mais ricos.

 

Será que o aluno deveria ter zerado a prova? Vamos às regras:

 

“A redação receberá nota 0 (zero) se apresentar uma das características a seguir:

- fuga total ao tema;
- ƒnão obediência à estrutura dissertativo-argumentativa;
- texto com até 7 (sete) linhas;
- impropérios, desenhos ou outras formas propositais de anulação;
- desrespeito aos direitos humanos (desconsideração da Competência 5); e
- folha de redação em branco, mesmo que tenha sido escrita no rascunho.”

 

Eu diria que o caso do miojo poderia até se encaixar, marginalmente, como impropério. No entanto, uma receita de miojo não é, exatamente, ofensiva (o que não é o caso do aluno que colocou o Hino do Palmeiras…). Devemos nos lembrar que a redação não fugiu totalmente do tema e que o aluno foi penalizado, vide a nota. Ou seja, pelas regras, a redação não deveria ser zerada, e não foi; e não deveria receber nota alta, e não recebeu. 

 

Por fim, uma nota sobre o aluno do miojo. Se a redação tivesse sido escrita em uma situação sem regras tão definidas, eu apoiaria o uso de sanções mais rigorosas, talvez até mesmo a anulação da prova. O aluno que colocou a receita do miojo na prova claramente não se importa com sua nota no ENEM. Só que o ENEM é uma prova importante, e determinante, na vida de muitos outros e isso deveria ser respeitado pelo indivíduo. Para mim, o simples fato dele não ter respeitado a prova o faz um imbecil, independente da nota que ele tirou. Infelizmente muitos tratarão o indivíduo como um herói, ou um rebelde. Mas não este blog.

Sexta-feira
fev222013

"Como treinar seu Dragão" e ciência básica

 

Assistir a um filme ou a um seriado múltiplas vezes nos fazem abrir nossa mente para subtextos existentes nas produções. Foi desta forma que vi que Toy Story falava não de brinquedos, mas sim de cientistas. Agora chegou a vez de “Como treinar seu Dragão”.

 

Eu acho que animação da Dreamworks é provavelmente uma das melhores dos últimos tempos, incluindo os filmes da Pixar. A razão de gostar tanto do filme sempre me eludiu mas agora eu percebo: “Como treinar seu Dragão” fala sobre a importância da Ciência Básica para uma sociedade.

 

Soluço é um jovem Viking da vila de Berk. A sociedade de Berk gira em torno da sua guerra contra os dragões. Por causa desta guerra, toda tecnologia que os habitantes de Berk desenvolvem tem como finalidade matar dragões. Além disso, tudo o que se sabe dos dragões é como ele matam pessoas e como se deve matá-los. “Extremamente perigoso” e “Mate na hora” são os termos mais repetidos ao descrever os dragões.

 

Soluço não é um cidadão típico de Berk. Apesar de seu pai querer que ele trabalhe desenvolvendo armas contra os dragões, ele nao parece ser muito bom no que faz. Sua vida começa mudar quando ele tem oportunidade de observar dragões em seu ambiente natural. Aos poucos ele percebe que o conhecimento aplicado contido na Wikipedia viking é inútil: “Tudo o que sabemos sobre vocês está errado!”

 


 

Agora vem a parte importante: aos poucos, Banguela elabora e testa diversas hipóteses sobre a Biologia e Psicologia dos dragões. A sua motivação não tem motivo prático mas sim uma imensa curiosidade de saber mais sobre os animais, algo considerado sem valor pela sociedade viking. O conhecimento básico gerado por Soluço foram essenciais para o desenvolvimento de tecnologias que revolucionam o modo com que os vikings lidam com os dragões. 

 

Berk, agora em paz, inicia uma nova era de desenvolvimento econômico e social provocada pela domesticacão dos dragões. E tudo porque um jovem se interessou por Ciência Básica ao invés da Ciência Aplicada.
Domingo
fev102013

Fechando ciclos

Mais uma vez me encontro fechando um ciclo. Desta vez um ciclo longo e muito bem sucedido.

A minha decisão de sair do ScienceBlogs Brasil foi tomada meses atrás. São muitas as razões mas nenhuma está associada à forma que o site está sendo admnistrado pelo Átila e pelo Kentaro.

Quando ajudei a construir o Lablogatórios, uma eternidade atrás, a minha missão era colocar os blogs de Ciência em evidência, construir uma comunidade de divulgadores de Ciência ao seu redor e garantir uma nova geração de blogueiros científicos. Minha missão foi cumprida. 

O problema é que, assim que senti que meus objetivos foram atingidos, também senti uma falta de direção: nunca havia planejado muito além. Saio do ScienceBlogs Brasil em busca de outros rumos. O objetivo imediato é reforçar meu site pessoal, onde ficarão hospedados novos projetos. També quero explorar outras vias de divulgar Ciência, quem sabe usando os novos poderes de docente.

Quero aproveitar para agradecer a todos que me ajudaram a atingir meus objetivos. A todos que tornara este ciclo tão agradável e cheio de retornos.

Godspeed, ScienceBlogs Brasil! E façam bookmark deste novo endereço!

Sexta-feira
dez142012

Chamadas universais não favorecem inovação

research_funding_2_standard

O CNPq tem como um dos principais editais de financiamento à pesquisa as "Chamadas Universais". Esses editais são abertos anualmente para projetos acima de R$60 mil, entre R$30 mil e R$60 mil e abaixo de R$30 mil por três anos. Pesquisadores de todas as áreas podem pedir verba. O bolo é dividido de forma competitiva entre os projetos, o que significa que muitos projetos considerados bons cientificamente são deixados de fora, em detrimento de projetos considerados melhores.

Este sistema parece, à primeira vista, bastante correto: projetos melhores ganham verba, projetos piores, não. Meritocracia pura.

Porém - e é claro que há um porém - este sistema tem limitações. Por exemplo: em um cenário de intensa competição, professores com carreiras mais estabelecidas devem ter mais vantagens sobre professores mais jovens. A Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora jovem mas com um projeto de nível internacional, por exemplo, foi preterida na última rodada de seleção. E ela não é uma professora recém contratada (como este que vos escreve). Outro problema é que projetos já estabelecidos também possuem uma vantagem: já existe um histórico de sucesso, logo é mais garantido investir neste projeto do que em projetos que propõem hipóteses novas, o desenvolvimento de novas metodologias ou o início de novas linhas de pesquisa. Acho que é fácil entender onde quero chegar: mesmo que não exista viés de seleção por politicagem ou camaradagem, este sistema favorece o que já existe e já está estabelecido. Só que a Ciência não é uma área que depende do estabelecido para crescer. Muito pelo contrário.

Não creio que as Chamadas Universais devam ser mudadas ou canceladas. Acho que ela consegue financiar projetos importantíssimos ano após ano. A solução para os problemas que levantei são mais simples: é necessário a abertura de editais voltados para jovens pesquisadores (como a FAPESP possui), e editais voltados para a abertura de novas pesquisas. Neste sentido a Gates Foundation possui uma proposta interessante: ela dá uma verba incial para muitos projetos inovadores e depois aumenta o bolo de alguns projetos bem-sucedidos.

Qualquer que seja a solução, creio que o maior órgão federal de financiamento à pesquisa precisa parar de sinais de que prefere autoridades à inovação. Do jeito que está construímos pesquisadores em torres de marfim que olham para seu próprio umbigo e não cientistas revolucionários de nível internacional.
Sexta-feira
dez072012

O impostor e o tolo



Me diga se isto já não te aconteceu: você vai ao trabalho, a um congresso, ou uma reunião, e se vê cercado de pessoas brilhantes, com feitos extraordinários. Todos confiantes e bem sucedidos e... você. Nestas horas é que você começa a se perguntar: "Como é que você acabou sendo colocado no mesmo patamar dos demais? Quem cometeu um erro ao te selecionar? Quando vão descobrir que você não pertence a esse grupo e é, na verdade, um impostor?"

Esta sensação, que aflige muitas pessoas, se chama Síndrome do Impostor. Ela é muito comum na academia - e outros ambientes altamente competitivos - porque algumas pessoas têm dificuldades em reconhecer a própria competência quando ela é clara para os demais. Estas pessoas sempre acham que suas conquistas foram por causa de sorte, que estas conquistas nem são tão impressionantes assim, que ouras pessoas a ajudaram, que os avaliadores foram bonzinhos demais, e outras racionalizações. O importante é saber que este é um sentimento comum e, muito provavelmente, falso. Somente a consciência de que esta síndrome existe e entendê-la já é um passo para aliviar a ansiedade que ela gera, por isso muitos serviços de aconselhamento de estudantes têm textos espcializados na Síndrome do Impostor. Outra maneira de se lidar com esta Síndrome é conversar sobre estes sentimentos com outras pessoas.

Obviamente a competente cabeça que se sente um impostor vai se perguntar, diante deste texto: "Mas, e se no meu caso for verdade? Tudo bem que esta é uma sensação falsa que atinge muitas pessoas, mas tenho certeza que eu tenho é lucidez!"

Diante deste pensamento, apresento o efeito de Dunning-Kruger. Este efeito aparece em pessoas tão incompetentes que são incapazes de reconhecer a própria incompetência. No artigo no qual este efeito foi descrito, os pesquisadores testram 45 estudantes com um teste lógico que possuía 20 perguntas. O que eles observaram é os 25% piores alunos alunos acreditavam que haviam acertado 14 perguntas quando eles haviama certado uma média de... 9.6 perguntas. Eles acreditavam que estavam entre os 35% melhores alunos do teste! Curiosamnete, os melhores alunos geralmente achavam que tinham ido piores do que realmente foram.

A conclusão lógica da Síndrome do Impostor e do efeito de Dunning-Kruger é que muitas das pessoas que se acham realmente capazes em um grupo são, na verdade, as mais incapazes e vice-versa. Obviamente que isso nem sempre é verdade mas eu recomendo que, sempre que você se vê se sentindo a bolacha mais crocante do pacote - ou a mais sem graça - talvez seja hora de avaliar que nosso cérebro pode estar se enganando e que você é um falso impostor... ou um tolo.