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Esta é a página do laboratório do Dr. Carlos Hotta, do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química, Universidade de São Paulo.

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Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

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Terça-feira
Out012013

Cadê os blogs brasileiros sobre Ciência?

O Roberto Takata escreveu um texto relevantíssimo sobre o atual estado dos blogs de Ciência brasileiros (“Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?”). Lá há uma discussão sobre as razões para os blogs brasileiros de Ciência estarem diminuindo seu ritmo de publicação. Eu concordo com ele e ainda adiciono algo a mais: acho que não só há um menor ritmo de publicações, como há um menor número de blogs novos surgindo.

A pergunta é: por que não estamos blogando? Por que vocês não estão abrindo novos blogs?

Muitos devem estar pensando que blogs são uma mídia velha e estão em extinção. Eu ouço isso desde que comecei a escrever e ainda discordo: blogs são uma ferramenta útil demais para publicação de conteúdo, o que está morrendo são algumas formas de se usar os blogs mas blogs ainda são uma forma insuperável de se entregar textos mais profundos para os leitores. Há ainda a possibilidade das pessoas estarem utilizando outras mídias para divulgar Ciência, o que definitivamente acontece mas não explica a totalidade do fenômeno.

Eu tenho uma teoria, uma que vem me assombrando há anos e que acho que pode ser verdade: será que a existência de um condomínio de blogs de Ciência como o ScienceBlogs Brasil pode ter inibido a proliferação de blogs de Ciência ao invés de fomentá-la, como eu cri que ia acontecer?

Abro a palavra para os leitores e colegas.

Quinta-feira
Set192013

Por que a soneca do despertador é de 9 minutos?

Por que o período de “soneca” (Snooze) do meu telefone é de 9 minutos. Por que não 10 minutos? Ou 5? Ou 7? O mais engraçado é que o período de 9 minutos é muito comum entre os alarmes.  Será que isso tem uma causa fisiológica? Ou psicológica? Ou cultural? Será que os alarmes têm 9 minutos de soneca no Japão? Na Índia? Quantas vezes uma pessoa em média aperta o botão de soneca? 

 

Bom, essas perguntas passam em ciclos de 9 minutos pela minha cabeça umas 5 ou 6 vezes toda manhã. Hoje, em um momento de pura procrastinação produtiva, tentei buscar a resposta. Aparentemente, função de “snooze” foi adicionada aos relógios na época em que eles ainda eram mecânicos. Isso que dizer que os engenheiros deveriam encaixar uma engrenagem extra entre as engrenagens já existentes nos relógios. Duas opções existiam: um pouco menos que 10 minutos e um pouco mais de 10 minutos. A engrenagem de 9 minutos foi escolhida porque os engenheiros acreditavam que um tempo maior faria pessoas cair em um sono profundo demais para acordarem de novo.  A engrenagem de 9 minutos acabou virando o padrão entre os relógios, padrão que foi mantido mesmo após a transição para o mundo digital.

Quinta-feira
Set122013

Nenhum cientista é uma ilha

É muito comum a cultura pop retratar cientistas como seres solitários, muitas vezes misantropos e até sociopatas (vide Dexter, Emmett Brown, Victor von Doom, Victor Frankstein, Walter Bishop). É por isso a imagem abaixo, que mostra um chefe de laboratório sendo abraçado pelos seus pós-docs e rodeado por estudantes, trazem um sorriso ao meu rosto.

A Ciência é uma atividade coletiva e colaborativa em seu cerne. A Ciência é uma rede social. As razões para isso são simples: 1) ninguém consegue saber tudo de tudo; 2) o dia tem apenas 24 horas e 3) se você publicou mas ninguém leu, a sua produção não está sendo útil para avançar o nosso conhecimento. Claro que há cientistas introvertidos, cientistas com peculiaridades curiosas e idiossincrasias interessantes e até cientistas sem tarquejo social mas certamente esta não é uma marca do cientista bem-sucedido (ou de um mal cientista).

Sexta-feira
Set062013

Ciência é poesia

O xkcd publicou recentemente uma tirinha linda sobre uma certa orquídea:

(q1: “Existem orquídeas cujas flores se parecem com abelhas fêmeas. Quando abelhas machos tentam copular com elas, elas tarnsferem pólen.”

q2: “Esta orquídea, Ophrys apifera, faz flores mas nenhuma abelha pousa nelas porque a abelha que ela mimetiza se exinguiu muito tempo atrás.”

q3: “Sem seu parceiro, a orquídea apelou para a auto-polinização, uma estratégia genética desesperada que só retarda o inevitável. Nada sobrou da abelha, mas sabemos que ela existiu pela forma da flor.”

 q4:”Esta é uma interpretação da lanta de como uma abelha fêmea é vista pela abelha macho” “Uau! Então…”

q5: “… a única memória da abelha é uma pintura feita por uma flor moribunda.”

q8: “Eu me lembrarei da su abelha, orquídea. Eu me lembrarei de você.”)

 

Muitas orquídeas possuem flores que imitam uma abelha fêmea a fim de atrair abelha machos para que elas transportem pólen de uma flor a outra. Outras espécies do gênero são polinizadas por abelhas que existem ainda hoje e esta é a única delas que tem auto-polinização. Algumas pessoas criticaram o autor da tirinha por utilizar uma linguagem poética que não é tão precisa quanto a linguagem científica. Eu discordo. Acho que ele conseguiu destilar muito bem o fenômeno científico na tirinha e ainda conseguiu colocar uma mensagem agridoce sobre a vida, o universo e tudo mais.

Um brinde à evolução!

 

Fontes: xkcd e wikimedia

Segunda-feira
Abr012013

Mensagem para futuros aprendizes de cientistas

Cara futura aprendiz de cientista,

 

          imagino você com 15 ou 16 anos de vida tentando decidir-se sobre seu futuro. As oportunidades são tantas e tão avassaladoras que a vontade mesmo é deixar todas de lado por mais alguns anos. Mas vamos fizer que você quer virar cientista. Será que é uma escolha boa? Certamente as pessoas vão te dizer que ser cientista não dá dinheiro, provavelmente vão dizer que é muito difícil e possivelmente vão te dizer que não vale a pena, ainda mais no Brasil. E então, você me pergunta, as pessoas estão certas?

 

          Olha, não vou mentir para você. A resposta muitas vezes é “sim” mas a resposta também é muitas vezes “não”. É uma resposta meio incerta, você me diz? Vai se acostumando, porque uma das coisas que não te dizem é que a Ciência vive de incertezas, e parte de nosso trabalho como cientistas é gerenciar estas incertezas.

 

          Em primeiro lugar vamos conversar sobre as inseguranças financeiras. Cientistas recebem mal, ainda mais no início da carreira. Eu tive a minha primeira carteira assinada depois dos 30 anos, apesar de camelar na Ciência e áreas afins desde os 17. Apesar disso nunca faltou dinheiro para mim, engraçado né? Outra coisa que nunca te dizem o suficiente: o dinheiro não deveria ser o objetivo de seu trabalho, ele deveria ser encarado mais como um efeito colateral bem-vindo. Pois bem, eu sou cientista porque amo ser cientista e por amar o que faço não tenho um rombo em minha alma que precisa ser tapado com bens materiais. E quando não precisamos consumir para ser feliz você não precisa de tanto dinheiro assim para viver.

 

          Outro segredo: se você decidir ser cientista hoje, você dificilmente será cientista “quando crescer”. Um motivo é que não existem tantas vagas quanto pretendentes a elas. A boa notícia é que ser cientista não é a única profissão que trabalha com Ciência. E todas elas poderão te dar muito prazer na sua vida. Outro motivo é que a sua vida vai lhe trazer oportunidades irresistíveis que vão te levar para longe do seu objetivo inicial. E um dia você vai ver que trilhou um caminho diferente do planejado anos atrás mas, nem por isso você é menos feliz. Aprenda agora: a trajetória é muito mais interessante que o fim do caminho, por isso não se esqueça de olhar a paisagem e de explorar trilhas interessantes.

 

          Próximo ponto: fazer Ciência é difícil. É verdade, fazer Ciência profissionalmente É DIFÍCIL. Mas fazer pontes também é difícil, curar pacientes é difícil, ensinar crianças, tocar violino, consertar motores de carros, fazer cadeiras, todas estas coisas são difíceis de se fazer de modo profissional e bem feito. O bom é que você vai passar por anos e anos de treinamento. Algumas habilidades essenciais para um cientista profissional: cientistas bons são excelentes comunicadores, cientistas bons são extremamente criativos, cientistas bons têm iniciativa e têm gana, também precisam (supostamente) ser bons administradores, precisam ser críticos, céticos, precisam gostar de aprender, gostar de ler. E precisam saber ler e escrever em inglês.

 

          Último ponto desta carta (te incentivo a me mandar mais coisas para comentar): vale a pena ser cientista? E ser cientista no Brasil? Bom, para ser bem sucedido como cientista é necessário ter muita competência mas também tem que ter um pouquinho de sorte. Existem um caminhão de problemas burocráticos que precisamos resolver na Ciência, na brasileira e na mundial. Tudo isso parece ser um pouco asfixiante às vezes mas espere só até sua primeira descoberta. É absolutamente impossível descrever a sensação de descobrir algo. A primeira coisa que você vai querer fazer após sua primeira descoberta vai ser a sua segunda descoberta. E assim por diante. É completamente viciante. É intenso e apaixonante. E sim, eu encaro todas as burocracias, todas as mediocridades, toda a vaidade e a incompetência por mais uma dose.

 

            Acho que é a grande conclusão é esta, minha futura aprendiz de cientista. Sou viciado em Ciência. Sou apaixonado pelo que faço e pelo meu meio. Se você não gostou de nada do que escrevi sobre a profissão de cientista ou se você descobriu que a Ciência não te atrai, tudo bem. Mas faça um favor para si mesma: se apaixone pelo que você faz. É essa paixão (e ou pouquinho de sorte) que vai fazer você sempre ter emprego apesar das condições do mercado, que vai fazer você encarar os obstáculos da sua profissão (porque todas têm obstáculos), e é a sua paixão que vai fazer você sobreviver a todos os baixos de sua carreira e alçar vôo nos seus pontos altos. Ame o seu ofício e, se for amar a Ciência, não se esqueça de contar para todo mundo sobre isso.