Sobre o blog

Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por Carlos Hotta.

Feed me!
« Adote um micróbio: Alison Kim | Main | Evolução em Rap de Baba Brinkman »
Quinta-feira
Mai242012

Brain drain: o ralo é mais embaixo

Um interessante estudo do US National Bureau of Economic Research mostrando a porcentagem de cientistas de um país morando no exterior e a porcentagem de cientistas estrangeiros neste país acabou de ser divulgado pela Times Higher Education.

Os resultados são muito interessantes: países como Canadá, Suíça e Austrália aparecem como grande importadores de cientistas enquanto Índia, Itália e Japão são os países que parecem ser mais fechados a estrangeiros. A Índia é um caso à parte: sua exportação de cientistas é tão grande comparada com sua importação que é um exemplo clássico de brain drain.



Brain drain é um conceito criado no pós-guerra, quando milhares de cientistas migraram da Europa para os Estados Unidos. O Brasil tem, historicamente, um terror enorme de perder seus talentos para outros países. Este estudo sugere que estes temores, pelo menos na Academia, são infundados: o Brasil é um dos países que possuem taxas de exportação/importação de cientistas equilibradas. No entanto isso não quer dizer que estamos bem: apesar de equilibradas, nossas taxas estão entre as mais baixas nos países indicados, revelando outras características de nossa Ciência: uma certa paroquialidade e insularismo.

A Ciência é uma rede social

No começo do ano passado nenhuma universidade brasileira ficou entre as 200 melhores no ranking da Times Higher Education. A principal razão: pouca visibilidade internacional. Um mapa mundial mostrando as colaborações científicas entre diferentes países ilustra isso. Em suma, nossas universidades recebem poucos pesquisadores estrangeiros, poucos estudantes estrangeiros e são pouco conhecidas lá fora. Só que a Ciência é uma rede social internacional e os pontos mais fracos de uma rede são os que possuem poucas conexões.



Os benefícios do brain drain

Quando ganhamos uma bolsa de doutorado da CAPES ou do CNPq para fazer doutorado no exterior, comprometemo-nos a trabalhar no Brasil pelo mesmo período de tempo após a obtenção do título. Na visão atual, não importa que governos estrangeiros queiram pagar para você completar sua formação lá fora pois não voltar imediatamente só aumenta o risco do investimento do governo ir ralo abaixo (veja minha opinião sobre isso). Só que é no posdoc que fazemos os principais contatos que irão compor sua rede de colaboradores no futuro, pois é a primeira vez que você pode começar a desenvolver uma linha de pesquisa independente. E nossa política científica pega recém-doutores, inseridos em um contexto internacional, prontos para criar suas próprias redes de colaboração, e os obriga a voltar ao país!

Você pode estar se perguntando: isso não aumenta as chances do pesquisador nunca mais voltar? Sim, mas qual o problema? Como um cientista irlandês uma vez me perguntou: "um cientista brasileiro no exterior não continua trazendo benefícios para o país?" SIM SIM SIM! Cientistas brasileiros no exterior são peças fundamentais para que novas colaborações internacionais com o Brasil surjam! Colocar cientistas lá fora que possuam conexões no país nos trazem mais pertos dos grandes hubs da Ciência mundial e outra coisa sobre redes: quanto mais conexões com os principais hubs, mais importante você é (e maior a sua chance de se tornar um hub). Além disso cientistas sêniores semrpe podem voltar, visto o caso do Nicolelis.

Esta lógica também se aplica ao caso do brain gain: é necessário facilitar a importação de talentos internacionais para o país (ainda mais em tempos de crise mundial). Exigências como reconhecimento do diploma de doutorado no país (demora mais de 6 meses) e prova em português só fecham nossa Ciência ao resto do mundo.


Mas o buraco é mais embaixo




Outro problema é que nos preocupamos demais com a perda de cérebros para o exterior mas nos esquecemos dos cérebros que perdemos dentro do país. A falta de políticas científicas e tecnológicas eficazes faz com que muitos talentos científicos sejam perdidos para outras áreas. Quantos cientistas geniais foram trabalhar em bancos ou como vendedores por falta de alternativas? Mais especificamente: quantos abandonaram a Academia? Pessoalmente não acho ruim em ver cientistas irem trabalhar em empresas de tecnologia, ensino ou divulgação científica, mas quantos talentos genuínos perdemos? E quantos outros talentos nunca tiveram oportunidade de serem desenvolvidos por causa da má qualidade de nosso ensino científico e carência de divulgação (e "evangelização") científica? Este, meus caros, é o real desperdício de cérebros.

PrintView Printer Friendly Version

EmailEmail Article to Friend

Reader Comments (9)

Hotta, muito interessante o texto e tua interpretação para o "Brain drain", gostei ainda mais da conclusão quanto ao verdadeiro desperdício. Mas aí questiono, qual o papel do cientista nesse quadro? E como os atuais cientistas estão desempenhando o seu papel?
Consigo responder as duas perguntas, mas não consigo pensar em uma forma de avaliarmos e quantificarmos isso.

em tempo:
"fecahdos, comaprada, extrior, cientpificas, talentso, nucna"
sacanearam com teu corretor ortográfico? =]

Maio 24, 2012 | Unregistered CommenterFelipe

Acho q o cientista tem como papel ensinar e propagar o conhecimento q ele possui. Conhecimento tem q estar em fluxo para ser útil. No entanto ainda temos q aprender muito para sermos eficientes nestas funções. Não acho q seja algo mensurável, não do jeito q queremos. Os erros de portugues estavam no primeiro texto q submeti mas logo depois corrigi tudo... o q será q aconteceu?

Maio 24, 2012 | Unregistered CommenterCarlos Hotta

Curioso é ver que no Brasil existe também um certo patriotismo xarope, de gente que não tem qualquer ligação com o meio acadêmico mas vem com aquele velho discurso do "traidor que abandonou a pátria".

E realmente, vir para o Brasil é meio complicado, tanto para o estrangeiro quanto para o próprio brasileiro que estava fora. Foi o meu caso. Sair de uma situação já estável e confortável para encontrar aqui uma semi-hostilidade (e 11 meses para revalidação do doutorado, com direito a "sua inscrição no concurso será indeferida") foi triste.

Mas uma coisa é certa: por mais que seja uma regra para lá de questionável, não é honesto pegar uma bolsa da CAPES ou CNPq já tendo de antemão a intenção de nunca voltar. Compromisso é compromisso, regra é regra, concordando ou não. No meu caso, não existia esta amarra, e eu não tive problemas para ficar 3 anos a mais na gringolândia - o que só aumentou a minha dúvida sobre se eu não devia voltar para lá quando comecei a dar com a cara nas paredes por aqui...

Maio 24, 2012 | Unregistered CommenterBog

Excelente, Hotta. Será que Israel seria a potência tecnológica atual se não tivesse mantido uma rede ativa de colaboração com seus cientistas e engenheiros no exterior? Duvido. Defendo ser estratégico para o Brasil manter cientistas espalhados mundo afora. Parabéns pelo excelente post.

Maio 25, 2012 | Unregistered CommenterCristina Caldas

Fantástico! Parece que estão descrevendo meu caso. Fiquei 1 ano no exterior e estou tendo que me virar no Brasil para superar esse tempo obrigatório aqui. Não acho que minha estadia lá fora tenha roubado do Brasil algum cérebro, eu acho que o Brasil ganhou afinal eu quero sim, quando tiver boas oportunidades, poder aplicar o conhecimento que adquiri aqui no meu país tropical. Recentemente também escrevi um post sobre como a contabilidade científica vem contaminando a formação do pós-graduando (http://prismacientifico.wordpress.com/2012/05/22/contabilidade-da-producao-cientifica-x-formacao-do-pos-graduando/). Tenho a opinião de que quanto mais discutirmos mais chegaremos próximos a melhorias reais... Adorei o post!

Maio 28, 2012 | Unregistered CommenterKarina Abrahao

Uma das razoes para cientistas brasileiros que fizeram sua carreira no exterior nao voltarem ao Brasil eh por causa da politica de salarios das universidades publicas.

Um Professor titular no Brasil tem um salario bem razoavel se ele tiver estado na mesma universidade durante um grande periodo (por causa de trienios, quinquenios etc...). Entretanto o salario inicial de um Professor adjunto ou Titular eh pifio.

Maio 28, 2012 | Unregistered CommenterAlex M

Eis a nossa triste realidade! Parece haver facilidade de interconexão, mas a verdade é bem outra. Ainda há muito o que fazer para diminuir nosso 'ilhamento'. Obrigada pelo texto!!!

Maio 28, 2012 | Unregistered CommenterFPAULA

Tem uma história curiosa de um conhecido meu (amigo de amigo). Ele fez física na UNB e não sei por que cargas dágua (trocadilho infame) cismou com um gerador hidrelétrico que ficava encostado lá no laboratório. Pelo que entendi a estrutura teria trincado por causa de algum efeito maluco do ar dissolvido na água. Ele criou um mecanismo que reduzia esse efeito, Veio uma empresa fizeram uma colaboração maluca lá, implementaram, etc, etc. Ele chegou a tentar algo no exterior mas nunca apareceu nada 'irrecusável' (Não me contaram a história toda mas imagino que ele queria ficar perto da família, etc).
Fim da história? Ele fez um concurso para um emprego público burocrático e passou claro. Por princípio eu não tenho nada contra o emprego 'público' per si (acho no mínimo necessário) mas a desproporcionalidade entre a quantidade de recursos que o país destina para pesquisa e para atividades burocráticas da administração pública (entre outras áreas) é muito grande.

Junho 15, 2012 | Unregistered CommenterHumberto

PostPost a New Comment

Enter your information below to add a new comment.

My response is on my own website »
Author Email (optional):
Author URL (optional):
Post:
 
Some HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>